GEOMETRIA, COSTURA E RESISTÊNCIA
O SABER DA COSTUREIRA COMO PRÁTICA MATEMÁTICA E O MOVIMENTO NEGRO EDUCADOR NO BRASIL
Palavras-chave:
Etnomatemática; Costura; Geometria; Movimento Negro Educador; Educação antirracista.Resumo
A matemática escolar, historicamente estruturada a partir de tradições eurocêntricas, frequentemente é ensinada de forma descontextualizada das práticas culturais e do cotidiano de grande parte da população brasileira. Nesse cenário, a geometria costuma aparecer em livros didáticos e exercícios padronizados, distantes das experiências de estudantes periféricos, negros, quilombolas ou rurais. Em contraposição a essa lógica, a Etnomatemática, proposta por Ubiratan D’Ambrosio, defende a valorização das práticas matemáticas presentes nos saberes culturais e nas tecnologias tradicionais dos povos. Este ensaio discute a costura, prática historicamente associada a mulheres negras, como um campo de conhecimento que articula técnica, criatividade e cálculo, constituindo-se também como prática geométrica viva. Ao longo da história brasileira, especialmente desde o período escravocrata e no contexto pós-abolição, a costura foi um espaço de trabalho, autonomia econômica e transmissão de saberes entre mulheres negras, funcionando também como tecnologia de resistência cultural. O estudo dialoga com contribuições de autores como Abdias do Nascimento, Lina Bo Bardi, Nilma Lino Gomes e Kabengele Munanga, que defendem a valorização dos saberes populares e da cultura afro-brasileira nos processos educativos. O objetivo é compreender a costura como prática geométrica capaz de mediar o ensino de conceitos matemáticos — como área, proporção, simetria e escala — de forma contextualizada, interdisciplinar e socialmente relevante. Ao reconhecer esses saberes no currículo escolar, contribui-se para o fortalecimento de uma educação antirracista, em consonância com políticas educacionais como a Lei 10.639/03 e com os princípios do Movimento Negro Educador no Brasil.
Referências
BO BARDI, Lina. Tempos de Grossura: O Design no Impasse. 2. ed. São Paulo: Instituto Lina Bo Bardi, 2012.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE nº 1/2024. Diretrizes para Educação das Relações Étnico-Raciais. Brasília, 2024.
D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2009.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
GOMES, Nilma Lino. O Movimento Negro Educador. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
KNIJNIK, Gelsa. Etnomatemática: uma proposta para o ensino da matemática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2018.
NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo: Documentos de uma Militância Pan-Africanista. 3. ed. São Paulo: Selo Negro, 2016.
PISSETTI, Schayla Letyelle Costa; DO SACRAMENTO SOARES, Eliana Maria. A etnomatemática desenvolvida por uma costureira: possibilidades e inspirações para práticas pedagógicas de ensino da Matemática. Revista de Ensino de Ciências e Matemática, v. 13, n. 4, p. 1-21, 2022.
ROSA, Milton; OREY, Daniel Clark. Etnomatemática: papel, valor e significado. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
SANTOS, M. L.; SILVA, P. F. Costura e Etnomatemática: saberes populares em comunidades quilombolas. Revista Educação Matemática em Foco, v. 14, n. 2, p. 45–68, 2023.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 REVISTA DIÁLOGO E INTERAÇÃO

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.

